2008 TC3: O Asteroide que foi descoberto 21 horas antes de cair na Terra

Almahata Sitta, o primeiro meteorito a partir de um asteroide previamente detectado e rastreado até a sua entrada na Terra


Fragmento do Meteorito Almahata Sitta, oriundo do asteroide 2008 TC3, descoberto 21 horas antes de colidir com a Terra. bbc.com

 

Em uma manhã super tranquila do dia 06 de outubro de 2008, prometendo ser mais um dia daqueles normais, exatamente às 6:39 de uma segunda-feira, eis que surge um asteroide de 2 a 5 m de diâmetro, próximo (~495.000 km) e viajando em direção à Terra, no campo de visão do telescópio que Richard Kowalski estava fazendo suas observações.


O local era o Catalina Sky Survey, um centro de monitoramento americano gerenciado pela NASA e pela a Universidade do Arizona, localizado no pico do Monte Lemmon, perto de Tucson no estado do Arizona, e o telescópio automatizado, possuía 1.5 metros de abertura.


Richard Kowalski com um pedaço do meteorito Almahata Sitta, em frente ao telescópio que descobriu o asteroide 2008 TC3, que deu origem ao meteorito. Planetary.org.


Primeiras imagens do asteroide 2008 TC3 ao ser detectado por Richard Kowalski. https://www.nasa.gov/images/content/321016main_D691.gif



Imediatamente Kowalski informou sua descoberta ao Minor Planet Center (MPC), centro responsável pela identificação, designação e cálculo da órbita de planetas menores, cometas e satélites naturais irregulares externos dos principais planetas. Rapidamente, eles desenvolveram um cálculo preliminar da órbita, que indicou instantaneamente que o objeto estava indo para um impacto na Terra dentro de, impressionantes, 21 horas, ou seja, em menos de um dia!


Após esse cálculo preliminar, a informação sobre o asteroide foi amplamente divulgada na comunidade astronômica, como por exemplo, o Escritório do Programa de Objetos Próximos da Terra na NASA/JPL (os chamados NEOs, Near-Earth Object), para que mais dados e observações pudessem ser coletados antes do impacto. Desde então, naquela tarde foi só correria na sede da NASA para alertar o governo dos EUA e suas instituições, como o Conselho de Segurança Nacional, o Escritório de Política Científica e Tecnológica, o Departamento de Estado e do Comando Norte do Departamento de Defesa e Centro de Operações Espaciais Conjuntas.


Dentro de uma hora após o recebimento do conjunto de dados inicial, o Jet Propulsion Lab (JPL/NASA) previu que o objeto entraria na atmosfera da Terra. Através de continuas atualizações de informação, tornando a orbita do asteroide mais precisa, Steve Chesney previu o impacto acima do norte do Sudão, no continente africano, por volta das 02:46 da manhã em 7 de outubro, mas isso após 19 horas da primeira observação de Kowalski. Assim, a NASA, por volta de 21:30, também divulgou um comunicado à imprensa anunciando o impacto previsto para aquela madrugada. No momento em que o asteroide (nomeado de 2008 TC3) entrou na sombra da Terra, 570 medidas astrométricas (posicionais) foram relatadas em 26 observatórios ao redor do mundo, incluindo profissionais e amadores.


O incrível Rio Nilo, palco de importantes histórias milenares da humanidade, também faz parte da história dos meteoritos. Algumas delas são a adaga do faraó Tutancâmon e as miçangas do colar enterrado no cemitério de Gizé, ambos feitos de ferro meteorítico no período do Antigo Egito antes de Cristo. Também tem os famosos meteoritos Isna, um condrito carbonáceo que caiu na Terra, e Gebel Kamil, um meteorito encontrado próximo à cratera de impacto no Egito, datado em mais de 5000 anos. Agora, mais recentemente, o Vale do Nilo iria presenciar mais um acontecimento histórico, para a ciência e para a sociedade, como a queda do primeiro meteorito a partir de um asteroide, previamente detectado e rastreado até a sua entrada na Terra. Até então, todos os meteoritos, sem exceção, foram apenas recuperados após serem vistos entrar na atmosfera ou serem encontrados tempos depois da sua queda.


Assim, seguindo as previsões, em 7 de outubro de 2008 testemunhas ao longo do Vale do Nilo, próximas à Waldi Halfa e a Estação de Trem 6 no Deserto da Núbia, situado na região oriental do deserto do Saara entre o Rio Nilo e o Mar Vermelho, avistam um bólido brilhante cruzar o céu daquela madrugada. O tal bólido era o asteroide 2008 TC3 entrando na Terra, a uma velocidade de mais de 44.000 km/h, que foi primeiramente detectado pelo satélite meteorológico americano, Meteosat 8, a aproximadamente 65 km de altitude. Poucos segundos depois, com ainda aproximadamente 37 km de altitude, às 02:46 UTC (5:46 a.m. hora local), o grande bólido explode devido à pressão de entrada entre o corpo e os gases atmosféricos, e se fragmenta em diversos pedaços, espalhando por quilômetros o novíssimo meteorito chamado de Almahata Sitta, que pela tradução significa Estação 6.


Porém, apesar do imaginário levar a crer que foi fácil encontrar os fragmentos, isto só ocorreu em dezembro de 2008, quando Peter Jenniskens, astrônomo de meteoros do Centro de Pesquisas Ames da NASA e do Instituto SETI Mountain View, Califórnia, e Mohammed Alameen, aluno da Universidade de Cartum, Sudão, montou uma força tarefa de 45 pessoas, contando com estudantes e empregados da universidade para “caçar o meteorito. Outros fragmentos foram encontrados ao longo de 2008 e 2009, somando mais de 600 pedaços do Almahata Sitta, em uma área de 7x30 km. Possivelmente, o erro de localização da região de busca ocorreu, mesmo o asteroide tendo sido rastreado, devido à altitude no qual ocorreu a explosão do bólido, partindo o grande asteroide em diversos pedaços. Geralmente essa explosão ocorre a aproximadamente 10 km de altitude, baseado na maioria das quedas assistidas de meteoritos, que por sua vez, são em sua maioria do tipo condritos ordinários, diferentes do tipo do meteorito oriundo do 2008 TC3, classificado com um ureilito.


Imagem de satélite da trajetória do asteroide 2008 TC3 sobre o Deserto de Núbia, norte do Sudão. A seta branca aponta para a direção em que o objeto se desloca. Em amarelo marca o caminho dos trilhos de trem que deram nome ao meteorito, Estação 6 em árabe. Os pontos vermelhos indicam os locais em que foram encontrados os meteoritos. Jenniskens et al. 2009.


Uma das grandes vantagens de se observar um asteroide antes que ele se torne um meteorito na Terra é poder conhecer e entender melhor sua estrutura, sua química, suas propriedades antes de se desintegrar em diversos pedaços na atmosfera, perdendo também parte do seu material de origem. O 2008 TC3 foi classificado como um asteroide do tipo F, que são raros, compreendendo apenas 1% de todos os corpos asteroidais encontrados no cinturão de asteroides, entre os planetas Marte e Júpiter. Talvez por esta razão, nunca antes haviam sugeridos meteoritos oriundos dessa classe de asteroides. Esses corpos foram inicialmente classificados por apenas três tipos: C (carbonáceos), S (silicáticos) e M (metálicos), mas com a descoberta de uma variedade de asteroides, consequentemente esta classificação, dada por David J. Tholen, expandiu para os tipos A, B, D, E, F, G, P, Q, R, T e V. Assim, a classe F é um tipo relativamente incomum de asteróide carbonáceo (C).


No próximo artigo, falaremos mais sobre o meteorito Almahata Sitta e sobre sua rara composição e classificação, que por ter características incomuns, tornou esse evento de detecção do asteroide e a queda assistida do meteorito ainda mais importante para a Astronomia e toda a ciência meteorítica.


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