A ARQUEOASTRONOMIA EM PERNAMBUCO

Atualizado: 26 de abr. de 2021


“O arqueólogo não escava objetos, mas civilizações”, dizia Sir Mortimer Wheeler. E com razão: foi através do exame meticuloso de documentos, monumentos e peças de arte, “testemunhos” arqueológicos deixados por nossos antepassados, que a Arqueologia reconstituiu parte da história da Humanidade.


A Arqueoastronomia destina-se por sua vez, a estudar o conhecimento astronômico dos povos antigos, em especial do homem pré-histórico e aqueles que deram início às civilizações. Surgida no final do século passado, a moderna Arqueoastronomia (ou Arqueologia Astronômica), tem como precursor e fundador o astrônomo inglês Sir Norman Lockyer (1836-1920), que se dedicou ao estudo dos alinhamentos das pirâmides egípcias e das construções megalíticas (de mega=grande; lítico=pedra) inglesas e francesas, em relação às estrelas, ao Sol e à Lua.

Para o homem pré-histórico o firmamento tinha um significado bem diverso do que nós, homem moderno, imaginamos. Para eles, sem a poluição luminosa das grandes cidades, a harmonia da imensa abóbada noturna de pontos luminosos, situada imediatamente acima de suas cabeças (bem como a Lua) e, durante o dia o Sol e sua fonte de luz (que aquecia e, igualmente, cegava), essa harmonia regia e ordenava a sucessão de fenômenos que ocorriam no espaço terrestre em que viviam, tornando-se, assim nessa visão de mundo, o componente principal de sua existência.

A Astronomia é considerada a mais antiga das ciências e a que desempenhou o mais importante papel em toda a história da humanidade. Sendo assim, a criação da Arqueoastronomia tem um papel fundamental neste contexto, pois o mais primitivo ser humano, nosso antigo ancestral, se interessou em observar os fenômenos astronômicos que ocorriam a sua volta e, na medida do possível, tentou compreendê-los, sem saber, que eles já estavam praticando a Astronomia. Entretanto, os primeiros registros da Astronomia só ocorreram por volta de 3.000 a.C..

Para as tribos mais antigas, os astros tinham muita importância prática. O Sol fornecia calor e luz durante o dia e a Lua luz durante a noite. Ou seja, inicialmente a atenção dos homens primitivos era atraída para os corpos celestes que afetavam diretamente sua vida cotidiana. O desconhecimento da verdadeira natureza dos astros e o sentimento de curiosidade, admiração e temor por eles produzidos, levou-os a acreditar na sua natureza divina. O Sol era um deus e a Lua uma deusa. As estrelas eram luzes fixas num hemisfério sólido sob o qual se estendia a terra plana. Foram com esses conceitos, que mais adiante se constituiu a Astrologia ( Ciência das adivinhações).


INDÍCIOS ARQUEOASTRONÔMICOS EM PERNAMBUCO


A seguir, trataremos de uma abordagem ainda não citada na literatura etnológica e científica brasileira: Trata-se de algumas conjecturas levantadas por Audemário Prazeres, no momento de sua visita (cerca de três anos), a cidade de Brejo da Madre Deus (206 Km do Recife) . Na ocasião, a visita foi realizada na propriedade chamada “Pedra da Lua”, localizada naquele município, onde foi avistado algumas inscrições rupestres de expressivo valor Arqueoastronômico.

A cidade de Brejo da Madre Deus, que a primeira vista pode não ser conhecida no contexto nacional, mas certamente todos já ouviram falar de Fazenda Nova, onde no Teatro De Nova Jerusalém, que é o maior teatro ao ar livre do mundo, é encenado todos os anos o espetáculo da “Paixão De Cristo”. Pois Fazenda Nova é distrito de Brejo da Madre Deus.


O DESENVOLVIMENTO DE UMA LINGUAGEM


O progresso cultural do homem é e8xpressa pela comunicação e pela vida em sociedade. A linguagem era necessária para a convivência em grupo. A linguagem do homem paleolítico se baseava no início em gestos, sinais e desenhos e mais tarde se baseava também na fala. O filme “Guerra de Fogo”, demonstra esta situação.

É impossível, devido à complexidade do problema, determinar como e quando o homem começou a fazer uso da linguagem para se comunicar com os seus semelhantes. Segundo os estudiosos, o homem primitivo pensava como criança, evocando imagens. A associação da idéia advinda da percepção sensorial permitiu o desenvolvimento do instinto criador, nascendo o rudimento do conceito, que partiu do concreto para o abstrato. O abstrato é uma representação mental. Foi a abstração que ocasionou o aparecimento da linguagem. Com o tempo esta linguagem evoluiu e chegou a transmitir idéias bem complexas. Neste contexto, há dois tipos de linguagem: a Natural, a linguagem dos animais onde só se emitem sons, e a Artificial ou Convencional, que é a linguagem humana. Devido a sua capacidade abstrativa o homem convenciona um valor para os sinais. Entre esses sinais, nos deparamos com as pinturas rupestres.


O QUE SÃO PINTURAS RUPESTRES?


Pinturas rupestres são pinturas e desenhos registrados no interior de cavernas, abrigos rochosos e mesmo ao ar livre. São artes do período paleolítico (pedra lascada), também chamado de arte pariental e existe no mundo todo, inclusive aqui no Brasil. As figuras geralmente representam imagens de animais como cavalos, mamutes, bisontes e humanas, tendo como representação a caça, danças, rituais ou guerreiros.

As pinturas eram executadas a dedo, com buril, com um pincel de pelo ou pena, ou ainda com almofadas feitas de musgo ou folhas. Eram utilizados materiais corantes de minerais nas cores ocre-amarelo, ocre-vermelho e negro.

Sempre utilizavam pigmentos de cores naturais, e percebemos que seus autores tentavam obter a terceira dimensão, aproveitando os acidentes naturais do teto e da parede das cavernas e também aplicando linhas de sombreamento e braços de diferentes grossuras.

Além das pinturas rupestres a arte paleolítica também faziam esculturas em marfim, osso, pedra e argila.


AS INSCRIÇÕES EM PERNAMBUCO


Quando comentamos sobre a Arqueoastronomia no Nordeste, que possui uma imensa riqueza de informações registradas em suas inscrições rupestres, nos permite fazer uso de algumas conjecturas sobre a origem dessas figuras rupestres. Inclusive, essas deduções podem servir como um auxílio para o controle das interpretações dos painéis então retratados.

Por outro lado, esse campo de interpretações, principalmente quando avistamos figuras isoladas, exige muita cautela nas explicações. Pois, pode a referida figura representar uma gama enorme de significados. Por exemplo: O que poderia ser associado a figura da Lua, pode ser uma determinada depressão existente nas redondezas, ou alusivo a uma espécie de canoa. O nosso Astro-Rei (Sol), pode ser retratado não como entenderíamos como um astro, mas um simples colar (ou cocar indígena).

Essas observações tornam-se necessárias, pois devemos tomar certos cuidados para não afirmarmos categoricamente as interpretações com um caráter conclusivo. A Historia e a Arqueologia são ciências que nos mostram um processo de transformação, onde todos os homens são agentes das constantes mudanças que ocorrem o processo histórico.

Assim sendo, para buscas de interpretações arqueoastronômicas, devemos preferencialmente estudar os painéis que possuem símbolos aparentemente astronômicos, sem estarem misturados com zoomorfos e antropomorfos.

A seguir vemos algumas imagens localizadas na propriedade Pedra da Lua em Brejo da Madre de Deus, onde desenvolvo algumas conjecturas referente à sua existência.

Observamos na imagem abaixo, um sinal claro de deteriorização associado com marcas de degradação e esfoliação (descamação), sejam de origem antrópica ou ação intempérie. Mesmo assim, observamos no primeiro plano, uma imagem do que poderia ser a imagem de um homem.

Na fotografia da próxima página, vemos Audemário Prazeres apontando para uma figura rupestre alusiva possivelmente ao nosso Astro-Rei Sol. Deve-se ressaltar que a referida figura encontra-se disposta isoladamente nesse enorme painel localizado na Pedra da Lua.

No detalhe da fotografia, vemos o que poderia ser uma representação do nosso Sol. Mas, podemos fazer algumas conjecturas, pois existe ao lado uma representação na forma de riscos que sugere indicar uma elevação.



Pois bem, estando diante da Pedra da Lua, e fazendo um giro visual no entorno dessa pedra, avistamos algumas elevações de pedras (montanha), que poderia ser uma justificativa do momento de visualização dessa “estrela”.

Inclusive, pode esta estrela não ser uma representação do Sol, mas do planeta Vênus, tão belo e de magnitude brilhante que visto em seu período matutino – visto nas primeiras horas da manhã (apelidado de Estrela Dalva), ou no seu período vespertino visto no entardecer, foi registrado nesse painel.

Um fato que não deve ser ignorado, é o aspecto das raias vistas nessa representação estelar (13 raias). Pois visualmente, não é comum observarmos no Sol as raias (tanto pela sua proximidade a Terra, e o seu intenso brilho ofuscante). Como também, uma das diferenciações mais comuns entre as estrelas do firmamento e as supostas “estrelas” que os planetas inferiores se mostra no céu, vemos distintamente o enraiamento apresentado por uma estrela e pelo um planeta. Um fato curioso, é que vemos na arte computacional de uma gravura rupestre do que poderia ser novamente o Sol (talvez eclipsado) , no Sítio arqueológico da Boa Esperança do Iguaçu no Paraná, uma quantidade de raias semelhante a vista na “estrela” da Pedra da Lua. Ou seja: soma-se dez raias.




Autor: Audemário Prazeres, Presidente fundador da A.A.P., ex-Presidente da SAR - Sociedade Astronômica do Recife. Astrônomo amador atuante há 41 anos


Pesquisa: Revista Macro Cosmo


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