ARQUEOASTRONOMIA NO BRASIL

Capítulo 1


O estudo da arqueoastronomia requer a colaboração de especialistas em astronomia, arqueologia, antropologia e história da arte entre outros, pois as evidências são frequentemente fragmentadas, sutis e sujeitas a diversas interpretações. Neste Capítulo serão apresentados alguns dos principais sítios arqueológicos brasileiros conhecidos, com possíveis conotações astronômicas, tais como círculos e alinhamentos de rochas orientados para os pontos cardeais, pinturas e gravuras rupestres que representam astros e estrelas, além de petróglifos e geoglifos. Além disso, esses sítios serão analisados utilizando-se a astronomia indígena.


INTRODUÇÃO


Desde a pré-história o homem observou que havia variações do clima e que os animais, as flores e os frutos mantinham relação com as estações do ano. Assim, ele começou a registrar os fenômenos celestes, principalmente os movimentos aparentes do Sol, da Lua e das constelações.


A arqueoastronomia é a disciplina que estuda os conhecimentos astronômicos legados pelas culturas pré-históricas (ágrafas), através de vestígios duradouros como a arte rupestre e os monumentos de rochas e por povos antigos, capazes de elaborar textos escritos, tais como os mesopotâmios, os egípcios, os gregos e os maias. As descobertas da arqueoastronomia também podem ser úteis para o astrônomo documentar antigos eventos celestes, tais como a aparição de um cometa muito brilhante, a explosão de uma supernova, a conjunção de planetas ou, até mesmo, a possibilidade do estudo da desaceleração secular da rotação da Terra através de registros de eclipses.


A mais conhecida evidência de que o homem antigo utilizava o céu é Stonehenge, próximo a Salisbury, Inglaterra. Em 1740, William Stukeley foi o primeiro a estudar Stonehenge do ponto de vista astronômico. Ele percebeu que o eixo principal do monumento estava orientado na direção do nascer do sol no solstício de verão (Stukeley, 2013).


A arqueoastronomia desenvolveu-se com as pesquisas do astrônomo Sir Joseph Norman Lockyer, fundador da conceituada revista britânica Nature. Em 1891, ele estudou as orientações astronômicas de certos templos da Grécia clássica e das pirâmides e templos do antigo Egito. Mais tarde, forneceu expli- cações astronômicas mais detalhadas sobre os megálitos de Stonehenge e os menires da Bretanha, no noroeste da França (Lockyer, 1893).


Há cinco décadas a arqueoastronomia recebeu novos reforços com as pesquisas do astrônomo Gerald Stanley Hawkins. Em 1963 ele escreveu o livro “Stonehenge Decodificado”, mostrando que essa construção megalítica, iniciada há mais de 4 mil anos, poderia ser utilizada como observatório solar e lunar para a previsão de eclipses (Hawkins, 1963).


A partir de 1970 a arqueoastronomia começou a ser ministrada como disciplina em algumas universidades, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. Atualmente as pesquisas em arqueoastronomia se intensificam em todo o mundo. Em 1998, por exemplo, foi descoberta na região de Nabta, no sul do Egito, por John McKim Malville e sua equipe, uma construção cerimonial com cerca de 5 mil anos, mais antiga que os megálitos da Europa e as pirâmides do Egito. Ela possui rochas alinhadas para os pontos cardeais e para as direções do

nascer e do pôr do sol nos solstícios (Malville et al., 1998).


A astronomia dos indígenas atuais fornece algumas referências para o conhecimento astronômico das sociedades antigas que habitaram o Brasil.


Frequentemente tendemos a julgar a cosmologia de outras civilizações através de nossos próprios conhecimentos. No entanto, a visão indígena do universo deve ser considerada no contexto dos seus valores culturais e conhecimentos ambientais. É evidente que nem todas as culturas atribuem signi- ficado igual a um mesmo fenômeno astronômico, considerando-se que cada comunidade possui sua própria estratégia de sobrevivência, que se reflete na adequação entre as atividades de subsistência e o ciclo das estações, por exemplo. Além disso, todas as comunidades indígenas não dependem de suas moradias, da caça, da pesca ou dos trabalhos agrícolas da mesma maneira. As constelações sazonais, por exemplo, podem ter significado e utilidade dife- rente para cada uma delas. Devemos diferenciar, também, a maneira de ver o universo dos indígenas que vivem no litoral, daqueles que vivem no interior, bem como considerar a localização geográfica e as condições geomorfológicas do terreno de onde são feitas as observações.


Em arqueoastronomia deve-se ter sempre em mente que a percepção do céu atual não é o mesmo daquele do passado distante, que sua visão é distinta para cada cultura e que também pode ser distinta em diferentes períodos de uma mesma cultura.


É importante salientar que muitos arqueólogos brasileiros demonstram certa resistência em aceitar que os monumentos megálitos ou a arte rupestre possam ter alguma relação com a astronomia e, talvez por isso, as pesquisas de arqueoastronomia no Brasil sejam tão escassas. No entanto, as pesquisas realizadas no exterior, nessa área, são publicadas nas mais conceituadas revistas do mundo.


MONUMENTOS MEGALÍTICOS


Monumento megalítico ou megálito é o termo usado para designar uma construção com grandes blocos de rocha, edificada principalmente com objetivos religiosos, funerários e astronômicos. Diversas pesquisas, em inúmeras locali- dades do mundo, comprovaram a efetiva orientação astronômica de estruturas megalíticas. Essa tendência de orientar determinado monumento, além da óbvia função de calendário, entrelaça-se com a organização social ao relacionar-se com períodos cerimoniais (Baity, 1973 e Aveni, 1986).


Os monumentos megalíticos são registrados, com frequência, em todas as partes do mundo, construídos por diferentes culturas e períodos, abrangendo desde o neolítico até o século 19. Vários pesquisadores constataram a existência dessas construções em rocha, feitas pelos seus antigos habitantes.


O termo “megalitismo” surgiu em 1867 na Europa e, com o sucessivo desenvolvimento das pesquisas arqueológicas, tornou-se um termo empregado no mundo inteiro.


Distinguem-se quatro tipos específicos de monumentos megalíticos: menir, alinhamento, cromlech e dólmen.


O menir é um bloco de rocha bruta, pouco trabalhado artificialmente, de forma e altura variáveis, colocado verticalmente no solo. Quando se encontra isolado é chamado, também, de monólito.


O alinhamento consiste de uma série de menires dispostos em fila, cujo mais famoso exemplo é o de Carnac, na França. Alinhamentos de rochas encontram-se espalhados pelo mundo e têm sido registrados principalmente na Europa, Ásia e África. Alguns desses alinhamentos possuem a idade estimada em 5 mil anos, enquanto outros parecem ser menos antigos.


Os agrupamentos circulares de menires são denominados cromlech.


Os dolmens podem ser considerados como monumentos megalíticos tumulares coletivos, possivelmente construídos entre os séculos 5o e 3o AEC na Europa, e até o século 1o no Extremo Oriente.


A arqueoastronomia, em geral, estuda os monumentos orientados para os pontos cardeais ou para as direções do nascer e ocaso do sol, da Lua ou de estrelas brilhantes, passíveis de medições astronômicas. Esses monumentos, possivelmente, teriam utilidade prática na determinação do calendário e na orientação geográfica.



ALINHAMENTOS DE MONTE ALTO, BA


O primeiro a estudar um sítio arqueológico com alinhamentos de rochas foi o engenheiro Theodoro Fernandes Sampaio (1855-1937) em Monte Alto, su- doeste da Bahia, em 1879. No entanto, para não criar polêmicas, omitiu essa descoberta até 1922. Ao organizar o verbete sobre arqueologia na importante publicação do centenário promovido pelo Instituto Histórico Geográfico Bra- sileiro (IHGB), descreveu que na região do Riacho das Pontas, existiria extenso alinhamento de rochas, com altura média de meio metro, fincadas equidistan- temente por cerca de 1 km (Sampaio, 1922).


Apesar de sua reputação, Theodoro Sampaio recebeu muitas críticas, tais como as do arqueólogo Angyone Costa que, em 1936, na primeira publicação especializada em arqueologia no Brasil, colocou Monte Alto na mesma categoria que outros locais fantasiosos, como Vila Velha, PR, e as Sete Cidades, PI (Costa, 1980).


Esse preconceito ideológico deve-se, em parte, ao impacto ainda presente nessa época em nosso país, dos antigos mitos oitocentistas envolvendo civilizações perdidas (Langer, 1997). Uma das raras exceções foi o arqueólogo Anthero Pereira Jr. que, em artigo para a Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, alertava para a verificação in loco dos vestígios em questão (Pereira Jr., 1944).


O próximo acadêmico a visitar Monte Alto foi novamente um engenheiro, Herman Kruse, em 1940. Realizou trabalhos topográficos e forneceu algumas referências geodésicas sobre o local, sempre insistindo que o alinhamento não havia sido edificado para finalidades de cercamento ou curral. Infelizmente seu trabalho permaneceu inédito, sendo parcialmente descrito apenas em 1996 por seu colega de topografia, Waldemar Moura (Moura, 1996).


Em julho de 1996, com uma equipe formada por pesquisadores do Museu Nacional (UFRJ) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os autores deste texto estiveram realizando pesquisas de arqueoastronomia em alguns sítios arqueológicos no interior da Bahia, com a professora Maria Beltrão, coordenadora do Projeto Central (Beltrão e Lima, 1986).


Em Monte Alto (14o 20’ 56’’ S; 43o 03’ 54’’ O; altitude 1.020 m), a uma distância de 500 km de Salvador, foram estudados certos alinhamentos de rochas, limitados por um riacho (Afonso et al., 1999). O primeiro fato que chamou a atenção foi que não havia necessidade dessas rochas se encontrarem tão próximas umas das outras para constituírem alinhamento, pois era possível visualizar diversas delas em uma mesma linha reta. Em segundo lugar, não poderiam servir mesmo como um curral, devido às suas alturas e afastamentos, tendo em vista que a altura das rochas é de 0,70 m e a separação entre elas de 2,55 m, sendo esses dois valores considerados em média.


Foi efetuado levantamento topográfico planialtimétrico dos alinhamentos e determinadas as coordenadas geodésicas do sítio. Esse levantamento foi dificultado pelas condições do terreno, encoberto pela vegetação que foi preservada. Foram contados 260 blocos rochosos que formavam diversas linhas retas, com diferentes azimutes, totalizando 930 m de comprimento. Alguns desses blocos se encontravam caídos, enquanto outros foram removidos do local provavelmente por caçadores de tesouro. Com base nos dados obtidos nos levantamentos efetivados, se os alinhamentos fossem preenchidos com os blocos rochosos, que possivelmente foram removidos, se obteria um total de 365 blocos, aproximadamente. Esse número sugeriu que os blocos poderiam corresponder ao número de dias em 1 ano.


Os alinhamentos de Monte Alto não se orientam para nenhum ponto astronomicamente relevante (nascer ou pôr do sol ou de estrelas brilhantes) e a estranha figura desenhada pelas rochas não se parece com nenhum animal ou vegetal conhecido. Assim, resolveu-se procurar alguma correlação entre o desenho na Terra com as estrelas do céu, visíveis do local.


A região do céu que mais se assemelha ao desenho dos alinhamentos de Monte Alto se situa entre o Grande Quadrado de Pégaso e o aglomerado estelar das Plêiades. Assim ele poderia representar a projeção vertical do céu na superfície terrestre, no instante do aparecimento das Plêiades. Nele, a Via Láctea poderia estar representada pelo riacho.


Aproximadamente durante um mês, a cada ano, as Plêiades ficam muito próximas do Sol no céu, não podendo ser observadas. O nascer helíaco das Plêiades ocorre quando elas se tornam visíveis, no lado leste, pouco antes do nascer do sol. O primeiro dia em que isso acontecia, perto de 5 de junho, marcava o início do ano para vários grupos indígenas brasileiros que observavam as Plêiades para elaborarem seus calendários. Nesse dia as Plêiades podem ser observadas por apenas alguns minutos, cerca de uma hora antes do nascer do sol, próximas à linha do horizonte. Logo depois, devido ao movimento de rotação da Terra de oeste para leste, o Sol surge no lado leste ofuscando a visão das Plêiades.


Em virtude do movimento de translação da Terra, também de oeste para leste, as estrelas se adiantam em média 3 minutos e 56 segundos por dia, em relação ao Sol. Logo, a observação das Plêiades nos dias seguintes ao do nascer helíaco se torna mais fácil, pois elas nascem cada dia mais cedo de noite em relação ao Sol até que, por volta de 10 de novembro, elas passam a nascer quando o Sol ainda está se pondo. A partir desse dia, não podemos mais observar o nascer das Plêiades, pois ao escurecer elas já se encontram acima do horizonte, se deslocando a cada dia para o lado oeste, até desaparecerem ao pôr do sol (ocaso helíaco). O ocaso helíaco ocorre perto do dia 28 de abril, não sendo mais visíveis à noite até perto do dia 5 de junho quando ocorre, novamente, o seu nascer helíaco.


A maioria dos povos antigos marcava o início do ano no dia do nascer helíaco de uma determinada estrela ou constelação. Os antigos egípcios, por exemplo, desde cerca de 5 mil anos atrás, utilizavam o dia do nascer helíaco de Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, que coincidia com o início da cheia do rio Nilo (inundação) para iniciar o seu ano. Possivelmente os astrônomos determinavam o dia e o local do nascimento dessa estrela utilizando a reta imaginária que passa pelas Plêiades, Aldebarã e Sirius. Em geral, nas noites de verão, utilizamos esse alinhamento de estrelas brilhantes para encontrar as Plêiades. Devemos salientar que essas estrelas nascem após as Plêiades.


Tendo em vista que cada bloco rochoso poderia representar um dia do ano, foi levantada a seguinte hipótese: os alinhamentos serviriam como ca- lendário anual cuja origem seria o primeiro dia em que o aglomerado estelar das Plêiades fosse visível antes do nascer do sol (nascer helíaco). Essa hipótese, embora astronomicamente correta, jamais poderá ser comprovada. No entanto, pode-se utilizar o desenho dos alinhamentos de Monte Alto para elaborar um calendário de rochas que se inicia no dia do nascer helíaco das Plêiades.


A ausência de estrelas bastante brilhantes antes do nascer das Plêiades justificaria a realização pelo homem pré-histórico de um desenho de rochas, partindo do grande quadrado de Pégaso, para efeito de memorização do céu.


Após a elaboração da hipótese acima, foi verificado que no clássico livro de Claude d’Abbeville escrito em 1614 (Abbeville, 1975), este afirmava que havia uma constelação que os Tupinambá do Maranhão chamavam Tinguaçu, que precedia o aparecimento das Plêiades em cerca de quinze dias e, em trabalho de campo, foi constatado que os Guarani também possuíam uma constelação chamada Tinguaçu que anunciava o aparecimento das Plêiades. Tinguaçu, em Tupi e em Guarani, significa pássaro de bico grande (gênero Attila de pássaros tropicais americanos), encontrado em todo o Brasil. Então, o desenho de Mon- te Alto poderia ser uma representação desta ou de outra ave, sem necessariamente estar relacionado aos Tupi ou aos Guarani, pois diversos outros grupos poderiam fazer essa mesma associação.


Para determinar a posição e a data do nascer helíaco das Plêiades, os Guarani usam o seguinte método empírico na região do céu que se situa entre o Grande Quadrado de Pégaso formado pelas estrelas a (alfa) de Andrômeda, a de Pégaso, b (beta) de Pégaso, g (gama) de Pégaso e as Plêiades. A partir do Grande Quadrado de Pégaso, seguindo as estrelas d (delta) da constelação de Andrômeda, a do Triângulo e 41 da constelação de Áries encontramos as Plêiades, pois elas se encontram na reta imaginária que une essas três estrelas. As estrelas, utilizadas no método, na ordem decrescente de seu brilho são: a de Andrômeda, a de Pégaso, b de Pégaso, g de Pégaso, d de Andrômeda, a do Triângulo, 41 de Áries e Plêiades (NGC 1432). Essas estre- las formam a constelação que os Guarani chamam de Arapuca, a armadilha para pegar passarinhos (Figura 1). A figura formada pelos alinhamentos de Monte Alto parecem refletir na Terra a figura dos alinhamentos celestes, que formam a constelação da Arapuca.


O nascer helíaco dessas três estrelas alinhadas precede o nascer helíaco das Plêiades, aproximadamente, nos seguintes intervalos de tempo entre parênteses: d de Andrômeda (45 dias), a do Triângulo (30 dias) e 41 de Áries (15 dias).


Assim, registrando a data e a direção do nascimento dessas três estrelas, pode-se prever a data e a direção do nascimento helíaco das Plêiades que nascem no mesmo lugar onde nasce o Grande Quadrado de Pégaso.


A partir do dia do desaparecimento das Plêiades ao escurecer, o Grande Quadrado de Pégaso já é bem visível antes de amanhecer. E tudo recomeça...


Diversas etnias de outras regiões do mundo, principalmente das Américas, marcavam o início do ano com o surgimento das Plêiades, assim como muitos grupos indígenas brasileiros. Sua principal utilidade consiste em desenvolver sistemas de visualização para o controle da estação agrícola. Estruturas monumentais orientadas para esse aglomerado estelar também são encontradas em diversas outras regiões do Planeta.

Com base em cerâmicas encontradas nas proximidades dos alinhamentos de Monte Alto, pode-se estimar a sua idade como sendo de aproximada- mente 2 mil anos.


O sítio arqueológico onde se situam os alinhamentos de Monte Alto se encontra abandonado e bastante depredado. É objetivo dos autores recuperá-lo, depois de realizar pesquisa mais detalhada. Assim, o complexo poderia servir como equipamento de educação ambiental que atrairia turistas para a região, como ocorre em Stonehenge e em muitos outros locais.


Fonte: Mast

Germano Bruno Afonso

(Museu da Amazônia, FAPEAM/CNPq)

Carlos Aurélio Nadal

(Departamento de Geomática/UFPR)


#pribetelgeuse


SERRA DE MONTE ALTO-BAHIA


Trabalhos recentes realizados por estudiosos durante as escavações e pesquisas realizadas no sítio arqueológico Serra de Monte Alto registraram sítios com pinturas rupestres, três estruturas de pedras denominadas localmente "Curral de Pedra", um sítio arqueoastronômico na forma de alinhamento de menires e uma estrutura de habitação denominada "Casa de Pedra".






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